Introdução: Em 2022, a ilha da Madeira apresentava uma prevalência de excesso de peso infantil superior ao observado a nível continental. Sabe-se que as práticas parentais de controlo da alimentação das crianças afetam os hábitos alimentares e, consequentemente, o peso das crianças.

Objetivos: Este estudo pretendeu analisar os hábitos alimentares e a influência das práticas parentais de controlo alimentar em crianças com sobrecarga ponderal, seguidas em consulta de nutrição no Serviço de Saúde da Ilha da Madeira.

Metodologia: Os cuidadores das crianças responderam a um questionário sobre a situação sociodemográfica, os hábitos alimentares das crianças e as práticas parentais de controlo alimentar. Recolheram-se os dados antropométricos das crianças.

Discussão/Conclusões: No total, participaram 37 cuidadores de crianças com sobrecarga ponderal. Diariamente, a maioria das crianças consumia hortofrutícolas, mas não consumia alimentos densamente energéticos. Observou-se que níveis baixos de pressão para comer foram associados a um maior consumo de hortícolas (no prato) e níveis elevados de restrição foram associados a um maior consumo de chocolates e outras guloseimas, pelas crianças. Conclui-se que as práticas parentais de controlo alimentar se associaram aos hábitos alimentares das crianças. Estes resultados enfatizam a necessidade de considerar estas dimensões no desenho de intervenções de combate à obesidade infantil, especialmente na região da Ilha da Madeira, em que a prevalência de excesso de peso contínua das mais elevadas do país.

É na infância que se formam os comportamentos alimentares, sendo os pais agentes cruciais neste processo. Os pais adotam práticas de controlo alimentar que influenciam a alimentação das crianças, no sentido de aumentar ou diminuir a sua ingestão, podendo desta forma comprometer o seu normal desenvolvimento ponderal.

Com esta revisão pretende-se abordar as diferentes práticas parentais de controlo alimentar, centradas nos seus efeitos ao nível individual, identificando os instrumentos disponíveis para a sua avaliação e os vários estudos conduzidos para estabelecer uma associação entre estas práticas e o peso da criança.

Para a condução desta revisão foi realizada uma pesquisa na base de dados PubMed®, complementada por uma pesquisa em snowball. Incluíram-se estudos longitudinais (observacionais ou experimentais) que abordassem a relação das práticas parentais de controlo alimentar com a ingestão ou peso/índice de massa corporal da criança em idade pré-escolar.

As práticas parentais de controlo alimentar de crianças em idades precoces são frequentemente avaliadas através do Child Feeding Questionnaire, que inclui três domínios que incidem sobre a pressão para comer, a restrição e a monitorização. A associação entre as práticas parentais e o peso da criança tem sido inconsistente na literatura, dada a natureza transversal de muitos estudos, o que limita a avaliação da direção das associações, já que este efeito pode ser bidirecional, ou seja as práticas podem condicionar longitudinalmente o peso da criança, mas também podem ser exercidas em reação ao peso da criança. De um modo geral, a pressão para comer parece diminuir o peso da criança, enquanto a restrição alimentar parece aumentar o peso infantil. Ambas as práticas de controlo alimentar apresentam efeitos bidirecionais. Para a prática da monitorização, os resultados são ainda inconclusivos. O controlo encoberto parece associar-se positivamente com o peso da criança e o controlo explícito mostra uma associação negativa.

O conhecimento acerca das práticas parentais de controlo alimentar e a sua complexa associação com o peso da criança pode servir de suporte para a implementação com êxito de programas de intervenção para prevenir e tratar a obesidade infantil, pelo que deve ser futuramente valorizado.