EDITORIAL

Acta Portuguesa de Nutrição 2024, 36, 02 , https://dx.doi.org/10.21011/apn.2024.3601

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Resumo

A certeza da mudança

Tem já mais de quatro décadas a descoberta por dois grupos de cientistas, liderados por Robert Gallo, nos EUA, e Luc Montagnier, em França, do vírus da imunodeficiência humana, designado desde então por HIV. Rapidamente se tornou temida, pelo facto de ser rapidamente mortal e sem cura conhecida, para o que muito contribuiu o popularidade das celebridades que dela padeceram, como Rock Hudson, Freddy Mercury, Rudolf Nureyev ou, em Portugal, António Variações. Uma das características mais marcantes que podiam ser observadas nestes doentes era a degradação do seu estado nutricional, com perda acentuada de massa muscular e das reservas de gordura, comum aliás a outras doenças terminais. Foi longo e laborioso o processo de desenvolvimento de medicamentos eficazes para controlar esta doença e foram milhões os seres humanos que não lhe resistiram a tempo. No entanto, dispomos hoje de um conjunto de medicamentos bastante eficazes que conferem não só uma muito maior sobrevivência como maior qualidade de vida aos doentes infetados. Curiosamente, o uso deste conjunto de medicamentos e a consequente passagem à cronicidade desta doença são capazes de exercer efeitos também em variáveis ligadas à nutrição e alimentação, como lipodistrofias, dislipidemias ou alterações do metabolismo glicídico, entre outros. É neste contexto que Caeiro e Policarpo publicam nesta edição da Acta Portuguesa de Nutrição um artigo acerca do follow-up de doentes infetados com HIV. Remetemos, naturalmente, para a leitura do artigo a identificação de todas as conclusões, mas podemos muito resumidamente perceber que neste conjunto significativo de doentes subsistem algumas preocupações acerca do seu risco cardiovascular e das medidas a longo prazo que devem ser implementadas sobre o seu estilo de vida por forma a minimizar o problema.

Ontem, como hoje, a nutrição e a alimentação continuam a ter um muito relevante papel, mesmo em doenças de origem e com sintomatologia tão diversas. A história recente ensina-nos que, fruto de alterações climáticas, migrações ou outras práticas, o curso das próprias doenças se altera, com aparecimento de novas doenças (de que o COVID 19 é um bom exemplo) ou ressurgimento de antigas (como o sarampo). Esta dinâmica é muitas vezes imprevisível e por isso é necessária uma capacidade de adaptação e de abertura para enfrentar novos desafios sem recorrer a velhas soluções. Acreditamos que uma base sólida de conhecimentos bem fundada na melhor ciência será decisiva para garantir a assistência adequada aos doentes por parte dos Nutricionistas e outros profissionais envolvidos.