EDITORIAL

Nuno Borges
Resumo

Decorreu em Lisboa, nos passados dias 4 e 5 de maio, o XVI Congresso de Nutrição e Alimentação (CNA) da Associação Portuguesa dos Nutricionistas. Tratou-se, uma vez mais, de uma reunião científica da maior importância no panorama nacional no que às Ciências da Nutrição e da Alimentação diz respeito. Os números confirmam-no: mais de 1500 participantes, mais de 100 oradores e 118 comunicações livres, num conjunto de autores e oradores de mais de uma dúzia de países diferentes.

A estrutura do programa desenvolveu-se em torno de um grande tema central, o da sustentabilidade alimentar. Parece de toda a relevância este tema e foi percetível o excelente acolhimento que teve por parte de todos. De facto, a sustentabilidade atravessa transversalmente as áreas da Nutrição e Alimentação, com uma importância crescente à medida que cresce também a importância destas ciências.

São muitas as áreas onde é evidente esta relevância. Desde já no desafio da produção alimentar para uma população sempre em crescimento, sabendo-se que hoje mesmo a produção e distribuição de alimentos é a atividade humana que mais impacto ambiental tem. Certamente que assegurar alimentos em quantidade e qualidade suficientes para todos é uma tarefa que não pode mais ser adiada e para a qual se terão de alocar importantes recursos materiais e humanos. Este desafio implicará, muito provavelmente, a necessidade de alterarmos alguns dos nossos hábitos alimentares, nomeadamente no uso, hoje excessivo, de carne bovina na alimentação, mas levará também, certamente, ao aparecimento de novos alimentos, fruto do inesgotável engenho e inteligência de tantos investigadores.

O desperdício alimentar foi também tema em destaque. Parece difícil admitir que tenhamos ainda um nível tão elevado de comida desperdiçada nas várias fases, desde a produção ao consumo. É, todavia, gratificante perceber o muito que está já a ser feito nesta área a vários níveis, com o envolvimento de estruturas locais e nacionais e que demonstram bem o quanto temos ainda de progredir a este nível.

Áreas como a restauração coletiva ou a nutrição clínica, de tanto relevo, não escapam igualmente aos desafios da sustentabilidade e as intervenções a este propósito foram bem demonstradoras do que se afirma.

Cremos assim que quem esteve no Centro de Congressos de Lisboa nestes dois intensos dias não ficou indiferente a estas questões. Era esse mesmo o propósito de quem pensou o programa e espera-se que esta semente de mudança na conceção global da Nutrição e da Alimentação tenha germinado definitivamente.

Como vem sendo hábito, chamamos a atenção para o próximo Congresso de Nutrição e Alimentação, a decorrer em 2018 em Lisboa e sob o tema da Nutrição na Sociedade da Informação. Até lá!

Práticas parentais de controlo alimentar: relação com o peso da criança

Parental-child feeding practices: relation with children’s weight
Carolina Coelho; Lisa Afonso; Andreia Oliveira
Resumo

RESUMO

É na infância que se formam os comportamentos alimentares, sendo os pais agentes cruciais neste processo. Os pais adotam práticas de controlo alimentar que influenciam a alimentação das crianças, no sentido de aumentar ou diminuir a sua ingestão, podendo desta forma comprometer o seu normal desenvolvimento ponderal.

Com esta revisão pretende-se abordar as diferentes práticas parentais de controlo alimentar, centradas nos seus efeitos ao nível individual, identificando os instrumentos disponíveis para a sua avaliação e os vários estudos conduzidos para estabelecer uma associação entre estas práticas e o peso da criança.

Para a condução desta revisão foi realizada uma pesquisa na base de dados PubMed®, complementada por uma pesquisa em snowball. Incluíram-se estudos longitudinais (observacionais ou experimentais) que abordassem a relação das práticas parentais de controlo alimentar com a ingestão ou peso/índice de massa corporal da criança em idade pré-escolar.

As práticas parentais de controlo alimentar de crianças em idades precoces são frequentemente avaliadas através do Child Feeding Questionnaire, que inclui três domínios que incidem sobre a pressão para comer, a restrição e a monitorização. A associação entre as práticas parentais e o peso da criança tem sido inconsistente na literatura, dada a natureza transversal de muitos estudos, o que limita a avaliação da direção das associações, já que este efeito pode ser bidirecional, ou seja as práticas podem condicionar longitudinalmente o peso da criança, mas também podem ser exercidas em reação ao peso da criança. De um modo geral, a pressão para comer parece diminuir o peso da criança, enquanto a restrição alimentar parece aumentar o peso infantil. Ambas as práticas de controlo alimentar apresentam efeitos bidirecionais. Para a prática da monitorização, os resultados são ainda inconclusivos. O controlo encoberto parece associar-se positivamente com o peso da criança e o controlo explícito mostra uma associação negativa.

O conhecimento acerca das práticas parentais de controlo alimentar e a sua complexa associação com o peso da criança pode servir de suporte para a implementação com êxito de programas de intervenção para prevenir e tratar a obesidade infantil, pelo que deve ser futuramente valorizado.

PALAVRAS-CHAVE

Alimentação, Estudos longitudinais, Índice de massa corporal, Infância, Obesidade infantil, Peso, Práticas parentais

ABSTRACT

Eating behaviours are shaped during childhood, and parents are crucial agents in this process. Parents adopt control feeding practices which influence children’s diet, in a way to increase or decrease their consumption, and thus could compromise their normal weight development.

This review aims to study different parental-child feeding practices, focused in their individual effects, identifying the available instruments to evaluate them and the research studies conducted to establish an association between those practices and child’s weight. To conduct this review, a theoretical review in the PubMed® database was performed, supplemented by a snowball search. Only longitudinal studies (observational or experimental) which focus on the relation between parental-child feeding practices and dietary consumption or weight/body mass index of preschool-aged children were included.

Parental-child feeding practices at early ages are frequently assessed by the Child Feeding Questionnaire, which includes three domains on pressure to eat, restriction and monitoring. The association between parental-child feeding practices and child’s weight has been inconsistent in the literature, due to the cross-sectional nature of several studies, which hampers the evaluation of the direction of these associations. This is particularly important because this effect could be bidirectional, which means the feeding practices could have a longitudinal influence child’s weight, but they also could be a reaction to the child’s weight. In general, pressure to eat seems to decrease child’s weight, while restriction appears to increase it. Both feeding practices have bidirectional effects. For monitoring, inconclusive results were found. The covert control appears to be positively associated with child’s weight while overt control shows a negative association. The knowledge on parental-child feeding practices and their complex association with child’s weight could serve as support to develop successful intervention programs to prevent and treat childhood obesity, and thus should be given value in the future.

KEYWORDS

Diet, Longitudinal studies, Body mass index, Childhood, Childhood obesity, Weight, Feeding behaviours

Bioethical Principles and Nutrition in Palliative Care

Princípios Bioéticos e Nutrição em Cuidados Paliativos
Joana S de Andrade; Mariana Magalhães Almeida; Cíntia Pinho-Reis
Resumo

ABSTRACT

The last few decades have been witness to huge advances in medical technology and, consequently, in Ethics. One area that reflects this progress has been the area of food, nutrition and hydration in Palliative Care. The current review focuses on the overall knowledge about Ethics in the field of Nutrition in Palliative Care regarding the principles of autonomy, beneficence, non-maleficence and justice.

KEYWORDS

Bioethical principles, End of life, Ethics, Nutrition, Palliative care

RESUMO

As últimas décadas têm sido palco de inúmeros avanços na tecnologia médica e, consequentemente, na Ética. Uma das áreas que reflete estes progressos é a área da alimentação, nutrição e hidratação em cuidados paliativos. A presente revisão foca-se no conhecimento global relativamente à Ética na Nutrição em Cuidados Paliativos relativamente aos princípios de autonomia, beneficência, não maleficência e justiça.

PALAVRAS-CHAVE

Princípios bioéticos, Fim de vida, Ética, Nutrição, Cuidados paliativos

Impacto da terapêutica nutricional individualizada no controlo glicémico de pessoas com Diabetes Mellitus

Impact of individualized nutrition therapy on glycemic control of diabetics
Tatiana Fernandes
Resumo

RESUMO

Introdução: A Diabetes Mellitus é uma doença metabólica com grande prevalência na população portuguesa.

O adequado controlo da glicemia é uma medida importante para qualquer pessoa com Diabetes Mellitus. A hemoglobina glicada (HbA1c) é um parâmetro importante na monitorização do controlo glicémico. A alimentação realizada pela pessoa com Diabetes Mellitus condiciona o controlo da doença e a prevenção de complicações da Diabetes Mellitus a longo prazo.

Objetivos: Este estudo teve como objetivo avaliar o impacto da terapêutica nutricional individualizada no tratamento da Diabetes Mellitus, nomeadamente na evolução da HbA1c.

Metodologia: Estudo prospetivo, realizado no Centro Hospitalar Cova da Beira, a pessoas com Diabetes Mellitus tipo 1 e tipo 2 que frequentaram a Consulta de Nutrição.

Resultados: Amostra constituída por 70 indivíduos com Diabetes Mellitus, sendo 15,7% pessoas com Diabetes Mellitus tipo 1 e 84,3% pessoas com Diabetes Mellitus tipo 2. A média de idades foi 58,61 ± 14,61 anos com diferença estatisticamente significativa entre o tipo de Diabetes Mellitus (p<0,001). Quanto ao estado nutricional a maioria das pessoas com Diabetes Mellitus tipo 2 eram obesos e as pessoas com Diabetes Mellitus tipo 1 normoponderais. A média de HbA1c antes e após a terapêutica nutricional foi 8,8 ± 1,9%

e 7,6 ± 1,3%, respetivamente, e estatisticamente significativa (p<0,001). Verificou-se que apenas existe diferença significativa nos parâmetros antropométricos em pessoas com Diabetes Mellitus tipo 2 após o aconselhamento alimentar (p=0,003).

Conclusões: A terapêutica nutricional individualizada permite melhorar o controlo glicémico através da diminuição do valor da HbA1c e os parâmetros antropométricos, particularmente nas pessoas com Diabetes Mellitus tipo 2.

Assim, a Terapêutica Médica Nutricional é uma medida eficaz no tratamento da Diabetes Mellitus e, por isso, deve ser obrigatória e acessível a todos os indivíduos com diagnóstico de Diabetes Mellitus.

PALAVRAS-CHAVE

Controlo glicémico, Diabetes Mellitus, Hemoglobina glicada, Terapêutica nutricional

ABSTRACT

Introduction: Diabetes Mellitus is a metabolic disease with great prevalence amongst the Portuguese population.

An adequate glycemic control is an important measure for any diabetic patient. Glycated hemoglobin (HbA1c) is an important parameter when monitoring glycemic control. The diet followed by diabetics conditions the disease’s control and complication prevention in the long-term.

Objectives: This study aims to evaluate the impact of individualized nutrition therapy in the treatment of Diabetes Mellitus, namely in the evolution of HbA1c.

Methodology: Prospective study developed at Centro Hospitalar Cova da Beira individuals with type 1 or type 2 Diabetes Mellitus, which have attended the Nutrition Consultation.

Results: The sample was constituted by 70 diabetic individuals, of which 15.7% were diagnosed with type 1 Diabetes Mellitus and 84.3% with type 2 Diabetes Mellitus. The age average was 58.61 ± 14.61 years old, with a statistically significant difference between the two types of Diabetes Mellitus (p<0.001). As for their nutritional state, the majority of type 2 diabetics were obese, while type 1 diabetics had normal weight. The HbA1c average before and after nutrition therapy was 8.8 ± 1.9% and 7.6 ± 1.3%, respectively, and statistically significant (p<0.001). It was verified that, only after diet counselling, there was a significant difference in the anthropometric parameters in type 2 diabetics (p=0.003).

Conclusions: Individualized nutrition therapy allows the improvement of glycemic control through the decrease of the HbA1c value and the anthropometric parameters, particularly in type 2 diabetics.

Therefore, Medical Nutrition Therapy is an efficient measure in the treatment of Diabetes Mellitus and, for this reason, should be mandatory and accessible to all individuals diagnosed with Diabetes Mellitus.

KEYWORDS

Glycemic control, Diabetes Mellitus, Glycated hemoglobin, Nutritional therapy