Introdução: A perturbação de compulsão alimentar envolve episódios recorrentes de ingestão excessiva de alimentos, perda de controlo e ausência de comportamentos compensatórios, frequentemente associados a vergonha, culpa, baixa autoestima, obesidade e comorbilidades psiquiátricas.

Objetivos: Avaliar a eficácia da Terapia de Reprocessamento Generativo num caso de perturbação de compulsão alimentar.

Metodologia: Participante do sexo feminino, 38 anos, com perturbação de compulsão alimentar e depressão desde a adolescência, peso inicial de 86 kg (IMC = 31,6 kg/m² – obesidade), submetida a 15 sessões de Terapia de Reprocessamento Generativo, com periodicidade semanal, realizadas online ao longo de 17 semanas. Aplicaram-se a Escala de Depressão, Ansiedade e Stresse-21, o Inventário de Depressão de Beck-II e o índice de massa corporal antes e após a intervenção.

Resultados: Após 17 semanas, verificou-se remissão completa dos sintomas de depressão, ansiedade e stress, com redução das pontuações da Escala de Depressão, Ansiedade e Stresse-21 de 35 para 0 na depressão, de 25 para 0 na ansiedade e de 38 para 0 no stress. Observou-se ainda redução progressiva das crises até remissão total, com ausência de episódios desde a 11.ª semana de tratamento, perda de 21 kg com redução do peso de 86 para 65 kg e do índice de massa corporal de 31,6 para 23,9 kg/m². Foram também relatados aumento da autoestima e melhoria da autoimagem. A medicação foi descontinuada sob supervisão médica, mantendo-se os resultados por 1 ano e 8 meses.

Conclusões: A Terapia de Reprocessamento Generativo mostrou-se eficaz na redução dos sintomas emocionais e comportamentais neste caso clínico, com benefícios sustentados para a saúde mental e física, indicando potencial para casos complexos de compulsão alimentar.

A presente revisão centra-se no efeito do stress no comportamento alimentar em adolescentes, adultos e idosos. Existem alterações no comportamento alimentar como resposta ao stress, existindo evidência em adolescentes, adultos e idosos da existência dessa associação. O aumento do desejo e do consumo de alimentos mais saborosos aumenta para algumas pessoas, enquanto que para outras pode ser exibida uma situação de perda de apetite. A relação do stress com o comportamento alimentar é bidirecional, pois tanto o stress pode levar a alterações no comportamento alimentar como uma má alimentação também pode aumentar os níveis de stress. São necessários mais estudos experimentais que possam inferir casualidade entre o stress e o comportamento alimentar e que averiguem a efetividade de estratégias concretas na prevenção dos episódios de desregulação do comportamento alimentar induzidas pelo stress por forma a fornecer mais e melhores ferramentas aos profissionais de saúde e nutrição que trabalham com esta temática a nível individual ou coletivo.

Introdução: A manutenção do peso perdido a longo prazo é um desafio, pelo que é essencial compreender os fatores envolvidos.

Objetivos: Analisar o índice inflamatório da dieta de indivíduos portugueses com sucesso na gestão do peso, explorando a sua associação com a magnitude de perda de peso e o índice de massa corporal, e com indicadores de comportamento alimentar e depressão, assim como explorar a relação destas variáveis entre si.

Metodologia: Foram utilizados dados do Registo Nacional de Controlo do Peso (n=205; 59,5% mulheres; 38,97 ± 10,82 anos; 25,76 ± 3,99 kg/m2). A ingestão alimentar foi avaliada através do Questionário semi-quantitativo de Frequência Alimentar, a partir do qual foi calculado o índice inflamatório da dieta; o comportamento alimentar (alimentação emocional e externa) através do Dutch Eating Behaviour Questionnaire; e o nível de depressão através do Beck Depression Index.

Resultados: O índice inflamatório da dieta variou de -3,67 a 3,64. Observou-se uma associação negativa entre o índice inflamatório da dieta e a magnitude de perda de peso na amostra total (r=-0,151, p=0,043) e no sexo feminino (r=-0,225, p=0,021). Relativamente ao índice de massa corporal, encontrou-se uma associação positiva com o índice de depressão (r=0,276, p<0,001) e com a alimentação emocional (r=0,284, p<0,001). Adicionalmente, o índice de depressão associou-se de forma positiva com a alimentação externa (r=0,322, p<0,001) e emocional (r=0,403, p<0,001).

Conclusões: Uma alimentação anti-inflamatória parece associar-se a maior magnitude de perda de peso em mulheres com sucesso na manutenção do peso perdido, o que sugere que o índice inflamatório da dieta poderá ser um fator relevante no que diz respeito à gestão do peso nesta população em particular. À medida que o índice de massa corporal aumenta, parece aumentar também o nível de depressão e a alimentação emocional não só nestas mulheres, mas também nos homens. Uma melhor compreensão da relação entre estes e outros fatores envolvidos na gestão do peso com sucesso poderá́ contribuir para o delineamento de intervenções do estilo de vida mais apropriadas.

As perturbações mentais estão a tornar-se mais prevalentes a nível global, e existe evidência de que a nutrição é um fator crucial no que diz respeito à sua prevalência e incidência. As abordagens de tratamento mais utilizadas, a psicoterapia e a psicofarmacoterapia, nem sempre são acessíveis, toleráveis ou eficazes no alívio dos sintomas. As dietas cetogénicas, restritas em hidratos de carbono, moderadas em proteína e ricas em gordura, são há muito utilizadas no tratamento de epilepsia refratária e, mais recentemente, têm vindo a ser investigadas no âmbito de muitas outras condições metabólicas, neurodegenerativas e do neurodesenvolvimento. Este trabalho pretende rever a evidência existente relativamente à utilização das dietas cetogénicas na prevenção e tratamento de perturbações mentais. Foi realizada uma pesquisa nas bases de dados PubMed e Scopus, de fevereiro a junho de 2022. Os estudos encontrados atribuem às dietas cetogénicas um efeito ansiolítico, antidepressivo, estabilizador do humor e antipsicótico, para além de reduções significativas na sintomatologia de várias outras perturbações, como autismo, ingestão compulsiva, hiperatividade e abuso de substâncias. Contudo, os estudos em humanos são escassos e de baixa qualidade. Em conclusão, a escassez de ensaios clínicos aleatorizados e controlados não permite traçar, neste momento, conclusões firmes sobre a eficácia das dietas cetogénicas nas perturbações mentais. No entanto, o seu carácter promissor justifica a realização de mais estudos.