EDITORIAL

Nuno Borges

Acta Portuguesa de Nutrição 2019, 15, 02 , https://dx.doi.org/10.21011/apn.2018.1501

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Resumo

Neste décimo quinto número da Acta Portuguesa de Nutrição, são publicados alguns artigos de inegável interesse na cada vez mais ampla área das Ciências da Nutrição, o que vai sedimentando a função primordial desta publicação.

Chama-nos particularmente à atenção o artigo de Pinho-Reis et al., que se debruça sobre as questões éticas da alimentação artificial em fim de vida. É feito um aprofundado ponto de situação relativo a esta área transversal a várias profissões da área da saúde, com especial enfoque no papel do Nutricionista. São muito relevantes as matérias abordadas, nomeadamente as que dizem respeito a decisões como alimentar e/ou hidratar artificialmente um doente em fim de vida, mas também acerca de como encarar a vontade de um determinado doente em não se alimentar, ou seja, a cessação voluntária da alimentação por parte deste. São discutidos aspetos técnicos e éticos e ressalta, em nosso entender, uma questão deveras relevante: a alimentação e a hidratação, constituindo em muitas patologias também um meio terapêutico, têm a si associadas um conjunto de outros fatores (sociais, emocionais, culturais, etc.) que as tornam únicas e, por isso, carentes de um tipo de reflexão ainda mais apurado.

Paralelamente, foi publicado no passado mês de janeiro, na prestigiada revista Lancet (1), um importante artigo acerca do futuro da sustentabilidade dos sistemas de produção alimentar e da sua capacidade em providenciar uma alimentação saudável a um número crescente de habitantes do nosso planeta, tendo como pano de fundo o designado “Antropoceno” período geológico atual e assim designado devido ao impacte da atividade humana hoje reconhecido sobre o planeta Terra. Discutem-se as formas de atingir estes objetivos e consolidam-se as relações entre a alimentação e a saúde. Este é também um tema, ou conjunto de temas, que encerra questões éticas importantes, como a já referida sustentabilidade dos sistemas de produção, distribuição e venda de alimentos, enquadrada numa lógica de sustentabilidade, hoje ameaçada, dos ecossistemas terrestres e marinhos. Mas também reforça a necessidade do recurso à melhor ciência e à melhor tecnologia disponíveis como meio para atingir estes ambiciosos, mas necessários, objetivos, dando assim renovado alento ao primado da ciência sobre as decisões técnicas de profissionais como os Nutricionistas.

Valorização do conhecimento científico e aprofundamento sobre as questões éticas, do indivíduo ao planeta, manter-se-ão assim o núcleo central que deve sustentar a ação do Nutricionista, tal como hoje está consagrado no seu Código Deontológico. Só com tamanha solidez estrutural estaremos preparados para enfrentar os desafios de um futuro em constante mudança, imunes a modas, tendências do momento e pressões de diversa índole.

Referências Bibliográficas

1. Willett W, Rockstrom J, Loken B, Springmann M, Lang T, Vermeulen S, et al. Food in the Anthropocene: the EAT-Lancet Commission on healthy diets from sustainable food systems. Lancet (London, England). 2019;393(10170):447-92.