EDITORIAL

Nuno Borges;
Abstract

No presente número da Acta Portuguesa de Nutrição são apresentados três artigos que focam diversos aspetos da nutrição em idade pediátrica. Muito embora se tenha assistido nas últimas décadas a uma diminuição progressiva da natalidade em Portugal, contribuindo assim para um envelhecimento da população e para a crescente importância dos idosos na definição das políticas ligadas à alimentação e nutrição, é por demais evidente o esforço que ainda é necessário fazer no estudo e na implementação de medidas a este nível em crianças e adolescentes.

A definição de um adulto saudável, diz-nos hoje a melhor ciência disponível, inicia-se ainda antes da conceção, com um adequado estado nutricional materno. O período da gravidez e os primeiros anos de vida da criança são igualmente decisivos para garantir que a criança se torne num adulto saudável e que exprima todo o potencial genético de que dispõe. Infelizmente assistimos ainda a níveis inaceitáveis de problemas ligados à má alimentação nesta decisiva fase da vida, dos quais destacamos a grande prevalência de excesso de peso e obesidade, que coloca Portugal num pouco invejável lugar entre os seus pares Europeus. Este problema projeta-se depois para a idade adulta, com consequências pesadas sobre o morbilidade e a mortalidade, assim como sobre os consequentes custos que todos suportamos com o Serviço Nacional de Saúde. A disponibilização de alimentos de elevada palatibilidade e baixa densidade nutricional, assim como a pressão publicitária a eles associada, contribui certamente para a manutenção do problema e exigirá, num futuro que se espera próximo, medidas de ajuste por parte da sociedade. Portugal tem igualmente níveis muito baixos de atividade física nas suas crianças e adolescentes e este é também um problema que urge corrigir.

Acresce que existe ainda um caminho a percorrer na definição das melhores linhas de orientação acerca da alimentação nos primeiros anos de vida e esta é uma missão a que a comunidade científica terá de dar resposta adequada. A Acta Portuguesa de Nutrição contribui assim para uma melhor compreensão do vastíssimo fenómeno da nutrição pediátrica, dando voz aos estudos científicos de qualidade nesta área.

Prevalence of overweight and obesity in 2-6 years old children from a kindergarten

Alex Pinto; Henrique Figueiredo; Maria J Ramos; Jorge Ferreira; Júlio C Rocha
Abstract

RESUMO

Introdução: O excesso de peso e a obesidade infantil são uma preocupação mundial. Os principais fatores associados ao excesso de peso em idade pré-escolar são o padrão alimentar e a atividade física. O Centro de Apoio Social de Mozelos é um jardim de infância onde os hábitos alimentares são supervisionados por um Nutricionista e a atividade física é oferecida gratuitamente a todas as crianças dos 2 aos 6 anos.

Objetivos: Este estudo visou investigar a prevalência de excesso de peso e obesidade em crianças com idades compreendidas entre os 2 e os 6 anos.

Metodologia: Estudou-se uma amostra de 129 crianças do Centro de Apoio Social de Mozelos (3,7±1,2 anos). Realizaram-se avaliações antropométricas às crianças e aos seus progenitores. Um questionário para caracterização da amostra foi realizado aos pais. Excesso de peso e obesidade foram definidos utilizando os critérios da Organização Mundial da Saúde.

Resultados: A prevalência global de excesso de peso e obesidade nas crianças foi de 11,7% (7,8% de excesso de peso e 3,9% de obesidade). A prevalência de excesso de peso e obesidade nos pais foi de 57,8% (40,5% de excesso de peso e 17,3% de obesidade).

Conclusões: A prevalência de excesso de peso e obesidade nos pais parece ser similar à população geral portuguesa. No entanto, os resultados encontrados nas crianças parecem estar abaixo do expectável comparando com estudos similares. São necessários mais estudos longitudinais que demonstrem claramente os benefícios da abordagem conjunta da atividade física e do padrão alimentar em jardins de infância como o Centro de Apoio Social de Mozelos na prevenção/redução do excesso de peso e obesidade em crianças com idade pré-escolar.

PALAVRAS-CHAVE

Crianças, Hábitos alimentares, Obesidade, Excesso de peso, Atividade física, Prevalência

Neofobia Alimentar em Crianças do 1.º Ciclo e seus Cuidadores

Cátia Ramalho; Marta Sampaio; Naïr Rocha; Rui Poínhos
Abstract

RESUMO

Introdução: As preferências alimentares são determinadas por predisposições genéticas, mas podem ser modificadas por fatores ambientais. A rejeição de novos alimentos sem intenção de os experimentar é designada de neofobia alimentar. Trata-se de um mecanismo defensivo, mas que pode conduzir a uma menor diversidade alimentar e, consequentemente, desencadear desequilíbrios alimentares e nutricionais.

Objetivos: Avaliar e relacionar o nível de neofobia de crianças (n = 182) dos 6 aos 12 anos com o nível de neofobia dos cuidadores e a perceção destes sobre as atitudes das crianças face a novos alimentos.

Resultados: O nível de neofobia alimentar dos cuidadores era superior ao das crianças (p < 0,001). Verificou-se também que os cuidadores sobrestimam o nível de neofobia das crianças (p < 0,001).

Conclusões: Estes resultados contribuem para um maior conhecimento na área da neofobia alimentar das crianças em idade escolar, nomeadamente no que respeita à sua avaliação e efeitos da perceção do nível de neofobia das crianças pelos cuidadores na diversificação alimentar.

Construção e validação de um questionário para avaliação da perceção sobre alimentos funcionais

Leandro Oliveira; Rui Poínhos; Francisco Sousa; Maria Graça Silveira
Abstract

RESUMO

Os alimentos funcionais caracterizam-se pela sua capacidade de promover a saúde e bem-estar ou reduzir o risco de determinadas doenças. Apresentam um grande potencial para a saúde, que é aproveitado em campanhas de marketing. Sabendo que as alegações de benefícios para a saúde associadas à publicidade influenciam a intenção de compra dos consumidores, é importante a criação de ferramentas que avaliem a perceção destes em relação aos alimentos funcionais.

Assim, o objetivo deste estudo é construir e validar um questionário de avaliação da perceção sobre alimentos funcionais.

Após a realização de um pré-teste, aplicou-se a versão final do questionário a 257 indivíduos com uma média de idades de 41 anos (dp = 6), encarregados de educação de alunos do 3.º ciclo do ensino básico da ilha Terceira, Açores. Foi analisada a consistência interna e a validade de constructo.

O Alfa de Cronbach (α = 0,816) revelou uma boa consistência interna. A análise fatorial exploratória revelou uma boa adequação do modelo (KMO = 0,855). A análise do scree plot revela uma solução unifactorial, com o fator extraído a explicar 30,4% da variância total.

Este estudo demonstra e certifica as capacidades deste questionário para a avaliação da perceção sobre os alimentos funcionais em adultos, sendo uma ferramenta útil para a investigação no âmbito do marketing e da educação alimentar na promoção de escolhas mais conscientes e informadas.

PALAVRAS-CHAVE

Alimentos funcionais, Atitudes, Ensino básico, Envolvimento parental, Validação de questionário

Recomendações nutricionais em idade pediátrica: o estado da arte

Margarida Nazareth; Carla Rêgo; Carla Lopes; Elisabete Pinto
Abstract

RESUMO

Introdução: A alimentação diária deve suprir as necessidades nutricionais e a sua adequação é fundamental para um crescimento e desenvolvimento saudáveis ao longo da infância e da adolescência. Não existem recomendações nutricionais portuguesas e na ausência destas, não há um consenso relativamente às recomendações que deverão ser utilizadas em Portugal.

Objetivos: Sistematizar e comparar as recomendações nutricionais na infância e na adolescência (0-18 anos) e contribuir para a adoção de recomendações a utilizar para a população pediátrica portuguesa.

Metodologia: Selecionaram-se as recomendações mais utilizadas para crianças e adolescentes, tendo por base uma revisão das publicações na base PubMed® nos últimos 10 anos: as do Food and Nutrition Board / Institute of Medicine, National Academies (EUA/Canadá), as da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura / Organização Mundial da Saúde (Mundiais) e as da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar / Comissão Europeia (Europeias). Posteriormente, analisaram-se todos os documentos existentes relativos a estas recomendações nutricionais.

Resultados: Os três Comités considerados apresentam critérios diferentes, nomeadamente na estratificação por idade que fazem, para apresentar as recomendações e na terminologia utilizada. As recomendações da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar / Comissão Europeia destinam-se à população europeia e têm por base uma metodologia sólida, incluindo recomendações dos outros dois Comités analisados, sendo também as mais recentes, no entanto as recomendações da Food and Nutrition Board / Institute of Medicine, National Academies são as mais utilizadas. Os valores recomendados para energia, proteína e lípidos não apresentam grandes variações entre Comités. Relativamente aos hidratos de carbono, as recomendações da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura / Organização Mundial da Saúde são as mais elevadas. No que diz respeito às vitaminas e minerais, de uma forma geral, as recomendações para a vitamina B1, ácido pantoténico, cálcio, selénio, zinco e iodo são semelhantes para os três Comités, apresentando algumas variações para as restantes vitaminas e minerais.

Conclusões: A adoção oficial de recomendações nutricionais para a população portuguesa é importante e urgente, para permitir a uniformização de critérios e comparar resultados. A solidez metodológica e a atualidade das recomendações da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar / Comissão Europeia levam os autores a considerá-las uma opção a recomendar.

PALAVRAS-CHAVE

Adolescentes, Crianças, Recomendações nutricionais

 

Nutrição funcional: princípios e aplicação na prática clínica

Neiva Souza; Ana Beatriz Baptistella; Valéria Paschoal; Andreia Naves; Nayara Massunaga; Renata Carnauba; Gilberti Hubscher
Abstract

RESUMO

A importância da alimentação é descrita há vários séculos. A nutrição, pelo adequado suporte nutricional, pode restabelecer o equilíbrio entre os sistemas orgânicos ao reduzir os riscos de doenças. A nutrição funcional compreende a relação entre estes diferentes sistemas ao avaliar sinais e sintomas de acordo com a individualidade bioquímica do paciente. O objetivo deste trabalho foi descrever e discutir conceitos da nutrição funcional e apresentar resultados de 13 pacientes com intervenção nutricional por 30 dias baseada nestes conceitos, ressaltando sua aplicabilidade na prática clínica nutricional. A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados Medline (via PubMed) e Lilacs, em sites institucionais e em livros relacionados ao tema por meio dos termos de indexação. A nutrição funcional, ao incorporar a relação entre a fisiologia, fatores emocionais, cognitivos e estruturais, e considerar aspectos genotípicos e bioquímicos individuais, traz uma prática avançada em avaliação, diagnóstico, tratamento e monitoramento nutricional utilizando ferramentas práticas e personalizadas, com o objetivo de promover saúde como vitalidade positiva. Pela escassez de publicações sobre a nutrição funcional, mais ensaios clínicos e estudos populacionais são necessários para evidenciar resultados com esta abordagem em que todos os pacientes tiveram sua glicemia, colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos diminuídos em um curto período de tempo.

PALAVRAS-CHAVE

Alimento, Cortisol, Doenças crónicas e padrão dietético, Nutrição funcional, Nutriente, Saúde e nutrição, Sistemas biológicos, Stress psicológico

 

Os Nutricionistas e os Cuidados Paliativos

Isabel Ferraz Pinto; Claudinei José Gomes Campos
Abstract

RESUMO

A importância da integração de Nutricionistas em serviços de cuidados paliativos oncológicos começa a ser discutida com maior evidência atualmente, dada a importância emergente da assistência alimentar e nutricional para o bem-estar dos pacientes e suas famílias e a qualidade dos serviços oferecidos. Nesta área, o trabalho desenvolvido pelos Nutricionistas tem-se tornado particularmente relevante no contexto de intervir e iniciar os cuidados paliativos mais cedo na trajetória da doença oncológica, mas é também importante no contexto da doença avançada, para a melhoria da experiência alimentar e qualidade de vida. No entanto, quer ao nível do conhecimento científico quer do desenvolvimento da prática profissional, são muitas as questões que permanecem por ser esclarecidas. Este trabalho teve como objetivo contextualizar o papel do Nutricionista nos cuidados paliativos oncológicos e discutir os fatores envolvidos na integração de Nutricionistas neste tipo de serviços.

PALAVRAS-CHAVE

Assistência nutricional, Cuidados paliativos oncológicos, Equipa multidisciplinar, Nutricionistas