EDITORIAL

Nuno Borges;
Resumo

Nunca como hoje a alimentação esteve na ordem do dia, seja nos órgãos de comunicação social, seja na imensidão da internet, seja nas conversas do dia a dia. Não é estranho que assim seja, dado o contínuo reconhecimento da alimentação como o mais importante determinante da nossa saúde. Neste contexto, temos assistido a uma série de debates acerca da possibilidade de utilizar a via fiscal para atenuar alguns problemas que a ciência tem atribuído ao consumo de alguns produtos alimentares. Neste caso concreto, os alimentos em causa são as bebidas açucaradas e conhecemos já a proposta do Orçamento de Estado para 2017 de incluir uma taxa adicional em alguns destes produtos. Parece a priori importante que o debate se faça independentemente da turvação sempre causada pelo debate político de cariz mais partidário, mas assistimos não raras vezes a um esgrimir de argumentos que pouco ou nada têm que ver com a substância do debate.

Neste número da Acta Portuguesa de Nutrição publica-se um artigo que enquadra a situação relativa ao uso de medidas de natureza fiscal como fator de correção do consumo alimentar, comparando práticas em diversos países que já as implementaram. Regozijamo-nos em publicar um artigo de tamanha atualidade e que marca uma importante posição técnica e até ética sobre o tema. A análise estritamente científica das relações causa-efeito entre a instituição das medidas e os efeitos em saúde deverá, em nosso entender, constituir sempre a base deste importante tipo de decisões políticas. Será igualmente importante que sejam asseguradas as condições para que a monitorização das consequências das medidas seja efetiva, impedindo que, como não raras vezes acontece, passado algum tempo se volte sempre ao ponto de partida por inexistência deste tipo de dados.

O papel de uma revista científica como a Acta Portuguesa de Nutrição será sempre o de dar visibilidade a reflexões que possam também contribuir para a tomada de decisões políticas. A estas reflexões publicadas, para que sejam úteis, exige-se que cumpram as melhores práticas científicas, nomeadamente garantindo-se a revisão por pares prévia à publicação. Por este crivo passaram igualmente os restantes artigos aqui publicados, que voltam a demonstrar a diversidade das Ciências da Nutrição e da sua indiscutível relevância na sociedade atual.

Análise qualitativa de ementas em escolas do Rio de Janeiro

Qualitative analysis of menus in Rio de Janeiro schools
Margareth Xavier da Silva; Margarida Liz Martins; Anna Paola Trindade da Rocha Pierucci; Cristiana Pedrosa; Ada Rocha
Resumo

RESUMO

Introdução: O Programa Nacional de Alimentação Escolar, existente no Brasil determina que todas as escolas públicas ofereçam refeições adequadas e gratuitas aos alunos, no período letivo, para manter os alunos corretamente alimentados no período de aulas. A fim de assegurar a qualidade das ementas das refeições escolares, estão documentados, no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, os alimentos restritos e os permitidos.

Metodologia: Utilizou-se neste estudo, para análise qualitativa das ementas oferecidas nas escolas, o instrumento de Avaliação Qualitativa das Preparações do Cardápio, que possibilita a verificação de aspetos referentes à qualidade nutricional e sensorial e analisou-se todas as ementas implementadas durante o ano letivo de 2013, das escolas públicas do município de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, Brasil. As preparações foram categorizadas, de acordo com as recomendações do Programa, em dois tipos: alimentos recomendados, que devem ser oferecidos de 80 a 100% e alimentos controlados que devem ser utilizados até 20%.

Resultados: Observou-se que os alimentos recomendados, nas seguintes categorias: carne, pescado e ovos; leguminosas; hortícolas; frutas e laticínios foram oferecidos nas ementas em quantidades adequadas. Entretanto, as saladas foram oferecidas entre 20-60% abaixo do que é indicado e os alimentos integrais, apesar de recomendados, foram pouco oferecidos. Alguns alimentos excederam o percentual máximo indicado para uso nas ementas, tais como: alimentos com adição de açúcar; industrializados semiprontos, enlatados e desidratados; cereais de pequeno-almoço e biscoitos.

Conclusões: As ementas destinadas aos alunos das escolas públicas municipais de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, Brasil, apresentaram vários aspetos positivos com oferta da maioria grupos de alimentos recomendados, adequadamente. Contudo, alguns produtos controlados, foram oferecidos em excesso, e poderiam ser substituídos ou reduzidos para a melhoria da qualidade do almoço fornecido aos alunos matriculados nestas escolas.

PALAVRAS-CHAVE

Análise qualitativa, Ementa, Escola, Refeições

Preocupação com o peso e prática de dietas por adolescentes

Concerns about weight and the use of diets by adolescents
Ana M G R Pereira
Resumo

RESUMO

Introdução: A adolescência é uma fase de maturação, onde o adolescente procura o reconhecimento da sua identidade. As transformações corporais levam o adolescente a voltar-se para si próprio, procurando entender as diversas modificações, onde muitas vezes a preocupação com o peso e a imagem corporal é um problema importante.

Objetivos: Conhecer a preocupação dos adolescentes com o seu peso e a sua adesão a dietas.

Metodologia: Estudo descritivo de metodologia transversal. Estudou-se uma amostra composta por 600 adolescentes escolarizados nos estabelecimentos de ensino da cidade de Bragança, com idades compreendidas entre os 12-18 anos. Para a recolha de dados utilizou-se um questionário autoaplicável adaptado de Luciana Apetito et al (2010).

Resultados: Como principais resultados constatou-se que 61,2% dos rapazes e 83,6% das raparigas afirmaram preocuparem-se com o seu peso, verificando-se diferenças estatisticamente significativas entre os sexos. A saúde e a estética aliada à saúde constituíam o principal motivo da preocupação com o peso. Eram as raparigas quem mais assumiam realizar dietas restritivas (18,5%). Dos adolescentes que faziam dieta, 8,6% dos casos foi prescrita pelo médico, 22,2% foi prescrita pelo nutricionista, 4,9% dos casos foi aconselhada por um amigo, enquanto um familiar aconselhou a dieta a 19,8% dos adolescentes. Em 44,4% das situações de dieta, estas partiram dos próprios jovens e de revistas/internet.

Conclusões: Os resultados obtidos revelam que existem diferenças de género no que concerne às perceções corporais e que o recurso a dietas é feito maioritariamente com base em fontes pouco credíveis. Desta forma, deve fomentar-se nos adolescentes a apreensão de conhecimentos de âmbito nutricional que lhes permita não só uma escolha alimentar adequada, mas também a capacidade de questionarem de forma racional e inteligente as informações veiculadas pelas diversas fontes de informação existentes no dia a dia.

PALAVRAS-CHAVE

Adolescentes, Dietas, Preocupação com o peso

Relação entre função motora, competências alimentares e peso de crianças e adolescentes com Paralisia Cerebral

Relationship between motor function, feeding competencies and weight of children and adolescents with Cerebral Palsy
Vânia Gomes; Maria Antónia Campos; Maria João Gregório
Resumo

RESUMO

Introdução: A Paralisa Cerebral é a causa mais comum de deficiência motora na infância. As alterações do movimento e postura a ela associadas conduzem frequentemente a dificuldades alimentares. A prevalência destas dificuldades parece relacionar-se com a gravidade da função motora e as suas consequências incluem refeições demoradas e stressantes, doenças respiratórias, desidratação e desnutrição.

Objetivos: Avaliar a relação entre a função motora, as competências alimentares e o peso de crianças e adolescentes com Paralisia Cerebral.

Metodologia: Avaliaram-se 73 crianças e adolescentes entre os 3 e os 18 anos. A função motora foi avaliada através do Gross Motor Function Classification System e as competências alimentares através do Eating and Drinking Classification System; os percentis de peso para a idade foram determinados através das curvas de crescimento específicas para esta população.

Resultados: Em relação à função motora, o nível V do Gross Motor Function Classification System foi o mais encontrado (60,3%). Quanto às competências alimentares, o nível I do Eating and Drinking Classification System foi o mais representativo (46,6%) e a maior parte da amostra revelou ser totalmente dependente para realizar a alimentação. O risco de excesso de peso foi superior ao risco de baixo peso para a idade. Verificou-se que, quanto maior a gravidade motora e as dificuldades alimentares, menor o percentil de peso para a idade e que maiores dificuldades alimentares estão associadas ao risco de uma criança/adolescente apresentar baixo peso.

Conclusões: Confirmou-se a existência de uma relação entre a função motora e as competências alimentares das crianças e adolescentes (uma maior gravidade do comprometimento motor está associada a maiores dificuldades alimentares) e que, maiores dificuldades alimentares condicionam o seu peso.

PALAVRAS-CHAVE

Competências alimentares, Função motora, Paralisia cerebral, Peso

Medidas económicas na promoção da alimentação saudável na Europa: taxação e subsidiação

Economic Approaches used to healthy eating promotion on Europe: tax and subsidy
Carla Gonçalves; Tânia Cordeiro; Alexandra Bento
Resumo

RESUMO

Introdução: A utilização de medidas económicas como políticas públicas de promoção de comportamentos alimentares saudáveis tem sido considerada por vários países para diminuir as doenças crónicas não transmissíveis.

Objetivos: O objetivo deste trabalho é realizar uma revisão sobre o impacto da utilização de medidas económicas para a promoção da alimentação saudável, como a taxação e a subsidiação de alimentos, em países Europeus.

Metodologia: Foi efetuada uma recolha e análise das medidas descritas em artigos científicos, documentos governamentais e regulamentos disponíveis nos países da europa. De seguida, foi realizada uma análise do impacto destas medidas no consumo e na saúde baseada na evidência disponível.

Resultados: Os países Europeus com utilização de taxação de alimentos para promoção da alimentação saudável são a Bélgica, a Dinamarca, a Finlândia, a França, a Hungria, a Irlanda e o Reino Unido, e com utilização de subsidiação de alimentos é o Reino Unido. Os alimentos comumente taxados são os refrigerantes, seguidos de outras bebidas com açúcar ou edulcorantes e no caso dos nutrientes são o açúcar e a gordura. A existência de estudos de eficácia destas medidas é escassa. A grande maioria dos estudos são modelos de previsão do impacto da adoção destas medidas no consumo e na saúde, apenas a Dinamarca, a Finlândia, a França, a Hungria e a Irlanda apresentam estudos observacionais, sendo que a taxação de produtos alimentares parece ter impacto ao nível da redução do seu consumo.

Conclusões: A informação analisada sugere que a utilização de medidas económicas tem potencial para modificar o consumo alimentar da população, no entanto, existem poucas evidências acerca do seu impacto a médio e longo prazo na saúde e na prevalência de doenças crónicas não transmissíveis. A adoção destas medidas pelos Governos deve fazer parte de uma política alimentar concertada e considerar uma série de fatores discutidos ao longo do artigo.

PALAVRAS-CHAVE

Europa, Obesidade, Política alimentar, Subsidiação, Taxação

Uma perspetiva nutricional sobre flores comestíveis

Edible flowers: a nutritional perspective
Luana Fernandes; Susana Casal; José Alberto Pereira; Jorge A Saraiva; Elsa Ramalhosa
Resumo

RESUMO

As flores comestíveis têm sido usadas na culinária de diversos países, tendo hoje em dia, o seu uso despertado a atenção com o intuito de melhorar a aparência, sabor e valor estético de pratos, aspetos que o consumidor aprecia e valoriza. No entanto, os consumidores também exigem alimentos com propriedades benéficas para a saúde, procurando produtos com qualidade nutricional interessante. Nesse sentido, o presente documento pretende abordar a composição nutricional de algumas flores comestíveis, incluindo os macro e os micronutrientes, bem como alguns compostos bioativos que demonstram o valor e potencial das flores comestíveis.

PALAVRAS-CHAVE

Composição nutricional, Compostos bioativos, Flores comestíveis, Macronutrientes, Micronutrientes

 

Frutos gordos e neurodegenerescência

Nuts and neurodegeneration
Raquel Bradford; Teresa F Amaral; Rui César
Resumo

RESUMO

Durante o envelhecimento, o cérebro sofre modificações, entre as quais a morte neuronal, que se reflete numa redução da função cognitiva e pode progredir para o aparecimento de doenças neurodegenerativas, que têm por base o stress oxidativo, isto é, um desequilíbrio entre a produção e a eliminação de espécies reativas de oxigénio, responsáveis por danos graves e irreversíveis nos constituintes celulares. Uma vez que a idade e a genética são fatores que não podem ser controlados, torna-se importante moldar os que serão modificáveis, como a alimentação. Os frutos gordos são alimentos com compostos potencialmente neuroprotetores, entre os quais os ácidos gordos polinsaturados, selénio, vitamina E e compostos fenólicos. Estudos efetuados em humanos demonstraram uma melhoria da função cognitiva após o seu consumo, e, em alguns deles, a manutenção da mesma após follow-up,

evidenciando a importância de uma prevenção iniciada precocemente. Apesar de ainda não se conhecer o seu exato modo de atuação, sabe-se que os compostos neuroprotetores desempenham importantes funções a nível cerebral e que são capazes de contrariar o stress oxidativo. Contudo, independentemente do mecanismo através do qual possam melhorar a função cognitiva, a composição nutricional pode variar muito entre os diferentes frutos gordos, pelo que, a estes alimentos, não pode ser dado todo o mérito dos resultados observados. Torna-se, assim, necessário considerar as interações sinérgicas entre os próprios compostos dos frutos gordos e os dos restantes alimentos que constituem o padrão alimentar.

PALAVRAS-CHAVE

Cognição, Doenças neurodegenerativas, Frutos gordos, Neurodegenerescência, Stress oxidativo

 

Níveis de vitamina D após Bypass Gástrico: Implicações e Recomendações

Vitamin D levels after Gastric bypass: Implications and Recommendations
Alison de Jesus
Resumo

RESUMO

A obesidade é um problema de saúde pública que cresce ano após ano e, consequentemente aumenta o número de cirurgias bariátricas. Dentro das várias técnicas, o bypass gástrico em Y de Roux é das mais comuns em todo o mundo. Para além de promover a perda de peso a longo prazo e a resolução de comorbilidades como a Diabetes Mellitus tipo II, Hipertensão e Apneia do Sono, tem como implicações os défices nutricionais.

A relação entre a obesidade e os baixos níveis de vitamina D (25(OH)D) tem sido observada porém, a sua causalidade ainda não está bem definida. A literatura mostra achados contraditórios no que diz respeito à definição dos pontos de corte dos níveis de deficiência de 25(OH)D e na dose de suplementação antes e após o bypass gástrico.

A absorção da vitamina D em situações fisiológicas normais está bem definida, já o mesmo não se aplica após o bypass gástrico, em que o impacto da cirurgia nos níveis séricos de 25(OH)D ainda não está bem elucidado.

Dado que a vitamina D tem mostrado um papel importante não só na função óssea mas também na função imunitária e celular, serão necessários mais estudos controlados e randomizados de maneira a serem criadas recomendações para prevenir e tratar a deficiência de vitamina D em indivíduos obesos, antes e após o bypass gástrico, através da exposição solar segura, alimentação e suplementação.

PALAVRAS-CHAVE

Bypass gástrico, Deficiência de vitamina D, Exposição solar, Obesidade, Suplementação de vitamina D