EDITORIAL

Nuno Borges;
Resumo

Neste número da Acta Portuguesa de Nutrição voltamos a dar conta da diversidade de temas de atualidade nas Ciências da Nutrição, uma diversidade que exige dos profissionais uma constante atualização relativa a conhecimentos e práticas. A desnutrição é certamente uma das temáticas que mais deve preocupar todos aqueles que se se importam com a saúde dos outros, individual e coletivamente. Embora o espectro da fome generalizada tenha, por ora, praticamente desaparecido das sociedades modernas e a sua lembrança seja já distante, deparamo-nos presentemente com um outro tipo de problema. A desnutrição presente em doentes internados em Hospitais constitui um fator de sério agravamento quer da sua condição clínica quer dos custos a suportar pela comunidade. O artigo de Santo Amaro e colaboradores, aqui publicado, dá exatamente conta da dimensão do problema num Hospital do Serviço Nacional de Saúde e revela números preocupantes e que incidem particularmente na população idosa doente, sendo que os dados da desnutrição no momento de admissão ao Hospital se revelam especialmente graves.

Fica assim evidente que não só é fundamental a implementação universal das ferramentas de rastreio da desnutrição na admissão hospitalar como é absolutamente necessário um melhor acompanhamento destas pessoas na comunidade.

Numa sociedade de abundância e em que os problemas que a sociedade normalmente associa à má alimentação são aqueles que resultam do excesso, o caminho do reconhecimento da desnutrição como importantíssimo fator de agravamento do estado de saúde de muitos indivíduos é certamente difícil. Cabe à comunidade científica e profissional esta tarefa, pois acreditamos que sem o reconhecimento geral dificilmente se poderá atenuar o problema de forma significativa. O direito à alimentação adequada é universal e válido para jovens e idosos, saudáveis e doentes: faça-se pois da boa prática um instrumento de igualdade e justiça.

Avaliação do risco de desnutrição num serviço de Medicina do Hospital Distrital de Santarém (Medicina IV)

Evaluation of risk of malnutrition in the “Medicine IV” service of Hospital Distrital de Santarém
José de Santo Amaro; Ana Catarina Correia; Cláudia Pereira;
Resumo

RESUMO

A desnutrição é um problema de saúde comum aquando da admissão hospitalar. Este artigo apresenta os resultados de um estudo descritivo-observacional de doentes hospitalizados no serviço de Medicina IV, piso 9, do Hospital Distrital de Santarém realizado com o objetivo de identificar o risco de desnutrição e avaliar a evolução nutricional dos doentes assim como o parâmetro origem dos mesmos, de modo a avaliar se existe diferença significativa de prevalência. Foram avaliados 150 indivíduos com média de 80 anos de ambos os sexos, tendo sido realizada a avaliação antropométrica por métodos indiretos (peso e altura estimados) e diretos (altura do joelho, circunferências da barriga da perna e do braço) de modo a obter o Índice de Massa Corporal, um dos parâmetros necessários para determinar o risco de desnutrição. Relativamente a este parâmetro - Índice de Massa Corporal - verificou-se um aumento durante o período de internamento (média inicial de 16,9 Kg/m2 e final de 17,5 Kg/m2).

Aquando a admissão hospitalar, foi possível identificar, através do Malnutrition Universal Screening Tool (MUST), 29,3% (N=44) dos doentes com risco de desnutrição médio e 70,7% (N=106) com risco de desnutrição alto.

Conclui-se que a taxa de desnutrição em doentes internados é elevada, o que pode prejudicar o quadro clínico. Perante esta problemática torna-se essencial a reavaliação periódica do indivíduo hospitalizado, contribuindo desta forma, para uma identificação e intervenção nutricional precoce.

PALAVRAS-CHAVE

Avaliação nutricional, Desnutrição, Estado nutricional, MUST

Alimentos com e sem glúten – análise comparativa de preços de mercado

Gluten and Gluten-Free Products – Price Difference
Daniela Afonso; Rita Jorge; Ana Catarina Moreira;
Resumo

RESUMO

A doença celíaca é uma doença autoimune que se traduz numa sensibilidade alimentar crónica ao glúten, que ocorre em indivíduos geneticamente suscetíveis. Em consequência da ingestão de glúten o organismo desenvolve uma reação imunológica contra o próprio intestino. A dieta isenta de glúten é o único tratamento conhecido para esta patologia, adotada para toda a vida, deve ser rigorosa, completa, equilibrada e variada.

O presente estudo pretende comparar preços entre categorias de produtos alimentares sem glúten e produtos equiparáveis com glúten. É também objetivo do estudo avaliar o impacto desta despesa no rendimento familiar associado ao cumprimento de uma dieta sem glúten e comparar os resultados da presente recolha de dados com um estudo anterior.

O preço por quilograma dos produtos específicos sem glúten e dos produtos com glúten foi recolhido através de consulta online. Analisou-se o preço por tipo de produto incluído nas 7 categorias alimentares (pão, massas, farinha, cereais de pequeno-almoço, bolachas/bolos, barras de cereais e alimentação preparada), de todos os produtos específicos sem glúten, e procedeu-se à recolha de preços de um igual número de produtos equiparáveis com glúten. Atualizou-se o preço dos alimentos incluídos num cabaz alimentar essencial com glúten, desenvolvido pela Associação Portuguesa dos Nutricionistas.

Em todas as categorias de produtos analisadas foram mais caros os Produtos Alimentares Específicos sem Glúten. As maiores diferenças de preço dos produtos específicos sem glúten em relação aos com glúten são observadas na categoria das massas, pão e bolachas. O preço do cabaz alimentar essencial sem glúten representa um aumento de 26% em relação ao equivalente com glúten. O custo acrescido para uma família seguir a Dieta Isenta de Glúten para um mês é de 110 €, e semanal por indivíduo de 8,6 €.

O presente estudo demonstra que, em todas as categorias, os Produtos Alimentares Específicos sem Glúten estudados são mais dispendiosos que os produtos alimentares equiparáveis com glúten. O custo do cabaz alimentar essencial sem glúten é superior em relação ao equivalente com glúten, representando mais de metade do orçamento das famílias com 2 adultos, que auferem o ordenado mínimo nacional. Em comparação com um estudo realizado anteriormente a diferença entre preços de Produtos Alimentares Específicos sem Glúten e com glúten diminuiu na maioria das categorias.

PALAVRAS-CHAVE

Dieta Isenta de Glúten, Doença Celíaca, Preços, Produtos com Glúten, Produtos Específicos sem Glúten

O açúcar que comes quando bebes: impacto de uma estratégia de consciencialização

The sugar you eat when you drink: impact of an awareness strategy
João Lima1; Catarina Augusto; Joana Gaspar; Teresa RS Brandão; Ada Rocha;
Resumo

RESUMO

Introdução: A obesidade é um dos problemas de saúde mais graves, a nível mundial. A procura de soluções para a designada epidemia do século XXI contínua, sendo que a relação entre o consumo de bebidas açucaradas e o peso corporal tornou-se uma questão pertinente.

Objetivos: Avaliar o impacto de uma estratégia de consciencialização sobre o teor de açúcares simples presentes num conjunto de bebidas disponibilizadas na cafetaria de um estabelecimento de ensino.

Metodologia: Foram analisadas as vendas de um conjunto de bebidas antes e após a intervenção. A intervenção baseou-se na afixação de um expositor com as bebidas e a representação da quantidade de açúcares simples, em açúcar, sob o mote “O açúcar que comes quando bebes”. Procedeu-se a uma análise das proporções das vendas, com um intervalo de confiança a 95%.

Resultados: Após a análise estatística dos rácios foi observada uma redução estatisticamente significativa no número de unidades vendidas, após a intervenção, de refrigerantes do tipo cola e das bebidas gaseificadas. Além disso, houve um aumento no número de unidades vendidas, com significância estatística, de néctares de frutas, chá/infusões e leite de chocolate.

Conclusões: A intervenção na cafetaria da Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra foi bem sucedida tendo-se verificado uma redução efetiva das vendas de bebidas açucaradas.

PALAVRAS-CHAVE

Açúcar, Bebidas açucaradas, Estratégia de consciencialização, Obesidade

Estado nutricional e risco de doença de Alzheimer

Nutritional status and risk of Alzheimer’s disease
Maria Janaina Bernarda da Silva; Marcela Paloro; Mike Yoshio Hamasaki;
Resumo

RESUMO

Doença de Alzheimer é uma desordem neurodegenerativa caracterizada por depósitos de peptídeos beta-amiloides extracelulares e emaranhados neurofibrilares intracelulares. Em termos sintomatológicos, as alterações das funções cognitivas são as condições mais frequentemente encontradas nos indivíduos com doença de Alzheimer, sendo a demência a principal delas. Entre os diversos fatores de risco para a doença, é amplamente reconhecido que a idade é o principal deles. Segundo as associações americana, brasileira, britânica e canadense de Alzheimer, fatores ambientais de risco, associados ao estilo de vida, são igualmente importantes para o desenvolvimento da doença de Alzheimer. Diversos artigos científicos sugerem que a obesidade está entre os fatores associados ao estilo de vida que podem aumentar a incidência dessa doença. Entretanto, um estudo publicado recentemente aponta resultados discrepantes quanto ao verdadeiro papel da obesidade em promovê-la. Levando em consideração a divergência presente na literatura científica sobre as influências da obesidade e do baixo peso na génese da demência, este trabalho refletiu sobre os aspetos fisiopatológicos que confirmam se o estado nutricional pode ou não ser considerado fator de risco para a doença de Alzheimer.

PALAVRAS-CHAVE

Desnutrição, Doença de Alzheimer, Inflamação, Obesidade, Stresse oxidativo