EDITORIAL

Nuno Borges;
Resumo

No presente número da Acta Portuguesa de Nutrição encontram-se trabalhos científcos que abordam temas muito diversos da área da alimentação e nutrição. Estes trabalhos resultam da experiência de terreno de diversos investigadores e vão desde a desnutrição à obesidade, passando por patologias com grau elevado de especifcidade técnica como a paralisia cerebral ou a artrite reumatóide. Muito tem sido o valioso trabalho de campo na área da alimentação e nutrição que poderia (e deveria) ser publicado em revistas científcas da especialidade e, por isso, lançamos novamente o apelo para quem estiver em condições de o fazer, o faça. O exercício de refexão que a escrita de um trabalho científco propicia é uma indiscutível mais-valia para a prática profssional, permitindo não raras vezes um espaço de autocrítica difícil de conseguir na exigente rotina diária. A este propósito, destacamos ainda o recente e relevantíssimo apoio à investigação nas ciências da nutrição propiciado pelos European Economic Area (EEA) Grants. Este mecanismo de fnanciamento europeu, com fundos provenientes da Noruega, Islândia e Liechtenstein, contemplou vários projetos dedicados exclusivamente à nutrição e alimentação, bem como outros em que esta importante área aparece associada a outros campos do saber. Trata-se de um dos mais importantes estímulos alguma vez feitos à investigação científca em Portugal, quer pela dimensão dos projetos quer pela relevância dos temas abordados. Destaca-se, pelo impacto potencial dos seus resultados, a possibilidade de termos, quase 40 anos depois, um novo inquérito alimentar nacional, que irá certamente permitir um olhar muito mais preciso sobre os hábitos alimentares dos Portugueses, possibilitando um conjunto de intervenções com um nível de fundamentação científca impossível de ter até à data. A Acta Portuguesa de Nutrição orgulha-se de ter no seu corpo editorial muitos dos investigadores envolvidos neste notável esforço coletivo de investigação, aguardando com grande expectativa os resultados que se irão obter.

ADEQUAÇÃO NUTRICIONAL EM CRIANÇAS SUBNUTRIDAS DOS 6 AOS 59 MESES, EM CANTAGALO (SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE)

NUTRITIONAL ADEQUACY IN UNDERNOURISHED CHILDREN FROM 6 TO 59 MONTHS OF AGE, IN CANTAGALO (SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE)
Ana Pisco; Rui Poínhos; Elisabete Catarino;
Resumo

RESUMO

INTRODUÇÃO: A subnutrição em crianças é considerada um problema de saúde pública, principalmente nos países em desenvolvimento, reconhecendo-se a sua relação com uma ingestão inadequada. A escassez de dados relativos a São Tomé e Príncipe nesta temática torna premente a avaliação da adequação nutricional destas crianças e a realização de estudos semelhantes.

OBJETIVOS: Conhecer as diferenças entre o aporte energético e de macronutrientes e as recomendações nutricionais em crianças subnutridas dos 6 aos 59 meses, no distrito de Cantagalo, em São Tomé e Príncipe. Estudar a relação entre a adequação da ingestão e o tipo e grau de subnutrição, idade, amamentação e difculdade de acesso a comida sufciente reportada pelo cuidador da criança.

METODOLOGIA: Neste estudo descritivo inquiriram-se cuidadores de 118 crianças entre os 6 e os 59 meses. Foram recolhidos dados antropométricos e sociodemográfcos e foi feito um inquérito às 24 horas anteriores para avaliar o aporte energético e de macronutrientes. Determinou-se a adequação nutricional pela comparação com as Dietary Reference Intake (crianças não amamentadas) e com as recomendações defnidas por Dewey e Brown (para as amamentadas).

RESULTADOS: Da amostra de crianças subnutridas, 72,9%, 59,3% e 74,6% apresentou aportes inferiores às recomendações em termos de energia, hidratos de carbono e lípidos, respetivamente. Apenas 14,4% apresentou aporte proteico inferior ao de referência. As crianças mais velhas e as não amamentadas tenderam a apresentar-se mais afastadas das recomendações. As crianças com subnutrição crónica moderada, comparativamente às que tinham subnutrição crónica severa, apresentaram maior prevalência de aporte energético inferior às recomendações, mas não se verifcaram diferenças relativamente aos macronutrientes.

CONCLUSÕES: A maioria das crianças subnutridas avaliadas não atinge as recomendações energéticas e de macronutrientes, à exceção das proteínas. Esta situação é mais grave em crianças mais velhas e crianças não amamentadas.

  PALAVRAS-CHAVE Adequação nutricional, Aporte energético e de macronutrientes, São Tomé e Príncipe, Subnutrição aguda, Subnutrição crónica  

INDIVIDUO: INTERVENÇÃO NUTRICIONAL DIRECIONADA AOS ESTILOS DE VIDA EM INDIVÍDUOS COM OBESIDADE

INDIVIDUO: LIFEST YLE-ORIENTED NUTRICIONAL INTERVENTION IN INDIVIDUALS WITH OBESITY
José Camolas; Osvaldo Santos; Mário Mascarenhas; Pedro Moreira; Isabel do Carmo;
Resumo

RESUMO

O paradigma terapêutico em obesidade força os profssionais de saúde a decisões clínicas partilhadas com o doente. A adoção de novos padrões alimentares depende de múltiplas mudanças comportamentais propostas pelos profssionais de saúde, que podem ter impacto negativo na qualidade de vida dos doentes, difcultando a sua manutenção. Este artigo apresenta o modelo de intervenção nutricional INDIVIDUO. Trata-se de uma intervenção estruturada, que integra recomendações nutricionais baseadas na evidência com estratégias relacionais promotoras de mudança comportamental sustentável. Apresenta-se também o protocolo do primeiro ensaio clínico controlado, que visa avaliar a efetividade desta intervenção. Sendo direcionada a candidatos a cirurgia da obesidade, em contexto de consulta multidisciplinar, espera-se que a intervenção seja promotora e/ou catalisadora de mudanças comportamentais sustentáveis, conducentes a melhorias clínicas signifcativas, a nível do peso corporal, controlo metabólico e qualidade de vida relacionada com a saúde.

PALAVRAS-CHAVE Cuidados centrados no doente, Ensaio clínico, Nutrição, Obesidade severa, Protocolo    

A IMPORTÂNCIA DA ALIMENTAÇÃO EM PARALISIA CEREBRAL

THE IMPORTANCE OF FEEDING IN CEREBRAL PALSY
Joana Sampaio; Maria Antónia Campos; Cláudia Afonso;
Resumo

RESUMO

Uma das defnições mais recentes da paralisia cerebral descreve-a como um grupo de alterações permanentes, mas não inalteráveis, do movimento e da postura, que causa limitações na atividade, as quais são atribuídas a lesões não progressivas que ocorrem no cérebro imaturo e em desenvolvimento. Nesta população são comuns as difculdades alimentares. Estas podem resultar de uma defciência oro-motora (difculdades de mastigação e/ou deglutição), disfagia e defciência sensorial, com ou sem distúrbios comportamentais. A estas difculdades alimentares podem, ainda, estar associados problemas de saúde como aspiração de alimentos e infeções pulmonares, refuxo gastroesofágico e obstipação. A baixa ingestão hídrica, ou até mesmo desidratação, o aumento do tempo despendido para efetuar uma refeição e a ingestão insufciente (que pode levar a baixo peso) são outras das consequências destes problemas na alimentação. Por outro lado, existem situações em que é comum observar-se excesso ponderal por diversas razões (por exemplo, sedentarismo). A intervenção a nível alimentar/nutricional é, por isso, fundamental para a melhoria da qualidade de vida do indivíduo. É, ainda, imprescindível que os cuidadores disponham de toda a informação e motivação para lidar com as suas especifcidades, de forma a que as refeições sejam o mais agradáveis e seguras possível. Nesta população, a alimentação pode ser o nosso maior aliado.

PALAVRAS-CHAVE

Alimentação, Difculdades e problemas alimentares, Intervenção alimentar/nutricional, Paralisia cerebral

TERAPÊUTICA NUTRICIONAL NA ARTRITE REUMATOIDE

NUTRITIONAL APPROACH OF RHEUMATOID ARTHRITIS
Joana Pinheiro
Resumo

RESUMO

A artrite reumatoide é uma doença autoimune crónica caraterizada por sinovites extensas resultando na erosão da cartilagem articular e perda de osso marginal que levam à destruição da articulação. Indivíduos com artrite reumatoide têm tendência para um mau estado nutricional. Para além disso, alguns dos fármacos utilizados na sua terapêutica aumentam as necessidades de alguns nutrientes e, noutros casos, reduzem a sua absorção. Com este trabalho pretende-se fazer um resumo da informação científca disponível sobre o papel da alimentação e dos principais nutrientes mais indicados como complemento do tratamento da artrite reumatoide, nomeadamente na redução da sintomatologia, na progressão da doença e de efeitos secundários associados à toma dos fármacos recomendados. Apesar de já existir alguma evidência da utilidade da nutrição como complemento da terapêutica na artrite reumatoide, são necessários mais estudos para determinar as necessidades nutricionais ótimas para os indivíduos com artrite reumatoide, assim como comprovar os benefícios da suplementação nutricional específca.

PALAVRAS-CHAVE

Ácidos gordos polinsaturados n-3, Alimentação, Antioxidantes, Artrite reumatoide, Probióticos